sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Carta aos Mortos


Amigos, nada mudou em essência.
Os salários mal dão para os gastos, as guerras não terminaram e há vírus novos e terríveis, embora o avanço da medicina.
Volta e meia um vizinho tomba morto por questão de amor.
Há filmes interessantes, é verdade, e como sempre, mulheres portentosas nos seduzem com suas bocas e pernas, mas em matéria de amor não inventamos nenhuma posição nova.
Alguns cosmonautas ficam no espaço seis meses ou mais, testando a engrenagem e a solidão.
Em cada olimpíada há recordes previstos e nos países, avanços e recuos sociais.
Mas nenhum pássaro mudou seu canto com a modernidade.
Reencenamos as mesmas tragédias gregas, relemos o Quixote, e a primavera chega pontualmente cada ano.
Alguns hábitos, rios e florestas se perderam.
Ninguém mais coloca cadeiras na calçada ou toma a fresca da tarde, mas temos máquinas velocíssimas que nos dispensam de pensar.
Sobre o desaparecimento dos dinossauros e a formação das galáxias não avançamos nada.
Roupas vão e voltam com as modas.
Governos fortes caem, outros se levantam, países se dividem e as formigas e abelhas continuam fiéis ao seu trabalho.
Nada mudou em essência.
Cantamos parabéns nas festas, discutimos futebol na esquina, morremos em estúpidos desastres e volta e meia um de nós olha o céu quando estrelado com o mesmo pasmo das cavernas.
E cada geração, insolente, continua a achar que vive no ápice da história.

Affonso Romano Sant’Anna
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