sábado, 7 de janeiro de 2017

Novo Dilúvio


Um dia, o Senhor chamou Noé da Silva e ordenou-lhe:
- Dentro de 6 meses, farei chover ininterruptamente durante 40 dias e 40 noites, até que todo o Brasil seja coberto pelas águas. Os maus serão destruídos, mas quero salvar os justos e um casal de cada espécie animal. Vai e constrói uma arca de madeira.
No tempo certo, os trovões deram o aviso e os relâmpagos cruzaram o céu. Noé da Silva chorava, ajoelhado no quintal de sua casa, quando ouviu a Voz do Senhor soar, retumbante, entre as nuvens.
- Onde está à arca, Noé?
- Perdoe-me, Senhor - suplicou o homem.
-  Fiz o que pude, mas encontrei dificuldades imensas: primeiro tentei obter uma licença da Prefeitura, mas para isto, além das altas taxas para obter o alvará, pediram-me, ainda, uma contribuição para a  campanha do prefeito à reeleição.
Precisando de dinheiro, fui aos bancos e não consegui empréstimos, mesmo concordando com aquelas taxas de juros. (Afinal, nem teriam mesmo como me cobrar depois do dilúvio!)
O Corpo de Bombeiros exigiu um sistema de prevenção de incêndio, mas consegui contornar a situação, subornando um funcionário.
Começaram, então, os problemas com o IBAMA para a extração da madeira. Eu lhes falei que eram ordens suas, mas eles só queriam saber se eu tinha "projeto de reflorestamento" e um tal de "plano de manejo". Neste meio tempo, o IBAMA descobriu, também, uns casais de animais guardados em meu quintal. Além da pesada multa, o fiscal falou em "prisão inafiançável" e eu acabei tendo que matar o fiscal, porque,  para este crime a lei é mais branda.
Quando resolvi começar a obra, na "raça", apareceu o CREA e me multou porque eu não tinha um engenheiro naval responsável pela construção da arca.
Depois, apareceu o sindicato exigindo que eu contratasse seus marceneiros com garantia de emprego por um ano.
Veio, em seguida, a Receita Federal, falando em "sinais exteriores de riqueza" e me multou, também.
Finalmente, quando a Secretaria de Meio Ambiente pediu o "Relatório de Impacto Ambiental" sobre a zona a ser inundada, mostrei-lhes o mapa do Brasil. Aí quiseram me internar num hospital psiquiátrico! (Sorte que o INSS, estava em greve!)
Noé da Silva terminou o relato chorando, mas,  notando que o céu clareava, perguntou:
- Senhor, não irás mais destruir o Brasil?
- Não! - respondeu uma voz dentre as nuvens - Pelo que ouvi de ti, Noé, cheguei tarde! Alguém já se encarregou de fazer isso!
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